Lorena Viegas
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Prólogo

Há décadas atrás, as famílias de reis e rainhas, Montreal e Castillo, travaram uma guerra para decidir quem ficaria no poder da terra de Pedra Verde. Em um acordo mal feito pelos regentes, a terra foi dividida ao meio, sendo a parte baixa comandada por Montreal e a parte alta pelos Castillo. As famílias só não contavam com o fato de que dois de seus primogênitos se apaixonariam e em meio à guerra e disputa de poder e riquezas, Francis e Clarice, futuros regentes, perderam as suas vidas tentando unir as duas famílias e, prometeram, em seu último suspiro, que seriam um do outro, independentemente de quantas vidas vivessem e contra quem lutariam para defender este amor. Então, na mesma noite, uma profecia foi lançada:

Quando dois herdeiros de famílias inimigas

Na terra reencarnar,

Suas almas se encontrarão

Colocando um fim à divisão de terra

E mostrando para todos que nem a morte põe fim ao amor.


Cinquenta anos depois...


A movimentação no castelo começou cedo este ano. Vejo os serviçais chegando para começar o trabalho. Mas, francamente, acho um pouco cedo começar com os preparativos dois dias antes do baile de primavera. Ao me aproximar do meu quarto, vejo a porta aberta e ouço movimentos lá dentro. Silenciosamente, caminho até a porta e esgueiro-me para dentro.

- Serviçais não deveriam entrar neste quarto. - anuncio já perto da mulher que, ao ouvir minha voz se assusta e deixa a bandeja com comida cair no chão.

- Ah, que ótimo! Agora serei trancada nas masmorras. - ela reclama abaixando rapidamente para limpar a bagunça. Me abaixo para ajudá-la. Depois de um tempo arrumando os restos de comidas, nos levantamos.

- Sabe, você não é presa nas masmorras por ter derrubado a bandeja no chão. – declaro calmamente observando a jovem que parecia nervosa e, até o momento, completamente absorta à quem eu sou.

- E como você sabe? – ela pergunta, então, de repente perde o interesse em escutar a resposta. – Olha, me desculpe, mas preciso ir buscar outra bandeja dessa para o príncipe. – completa, ainda sem perceber com quem está falando.

- Bom, fico lisonjeado, mas não estou com fome. – respondo jogando meus braços para trás para observar a reação dela. Ao perceber a confusão, a garota arregala os olhos.

- Senhor, peço-lhe mil desculpas por isso. – se apressa a dizer enquanto puxa a barra do vestido branco e se curva em uma reverência. Apesar de gostar de algumas regalias que o título me proporciona, esta era a que eu mais detestava.

- Por favor, não há necessidade. – interrompo segurando-a pelos ombros.

- Me desculpa senhor, eu posso descer agora e pegar outra bandeja. – oferece novamente.

- Não se preocupe com isso. Eu realmente não estou com fome agora. E por favor, me chame de Rafael. – peço me afeiçoando um pouco ao desajeito dela.

- Mais uma vez, peço desculpas, senhor. Mas não posso fazer isso. Bom, já que você não está com fome, com licença, senhor. – ela se curva novamente e caminha em direção à porta.

- Pode ao menos me dizer o seu nome? – peço de onde estou.

- Isso é uma ordem, senhor? – os olhos castanhos se viram para mim com certa resistência.

- Não, é um pedido. – declaro, pela primeira vez na vida, desconcertado.

- Então, não. – fala firme e sai do quarto, me deixando completamente boquiaberto. Foi a primeira vez em dezoito anos que me disseram um não. Quem é essa garota? 


Katerina


Oras, saio do quarto do príncipe pisando firme. Primeiro, ele me faz derrubar a bandeja com tudo no chão. Depois tenta flertar comigo? Sinceramente, quem ele pensa que é? Ele é O príncipe, Katerina! O príncipe! E você é só uma órfã insolente que disse não para um pedido real.

Ao chegar na cozinha a Sra. Cândida está com aquela carranca fechada me fuzilando, e, ao seu lado, tem um guarda parado esperando.

- Senhora, o príncipe não estava com apetite. – declaro deixando a bandeja em uma das bancadas da enorme cozinha do castelo.

- O príncipe exigiu que você retornasse com mais comida, garota. O que você fez com essa bandeja que eu lhe dei? – ela cospe ódio em mim.

- Nada, eu... – tento me explicar, mas como posso culpa-lo por isso?

- O príncipe garantiu que a serviçal não tem culpa, Cândida. – o guarda declara sem nenhuma emoção no tom de voz. No mesmo instante, uma ajudante me entrega outra bandeja com frutas e refresco e, novamente, caminho em direção ao quarto para entregar-lhe comida. Ao chegar, a porta está fechada e eu dou dois toques para pedir permissão.

- Com licença, senhor. – declaro abrindo lentamente a porta. – Trouxe sua comida. – completo. – Apesar de ter dito que não estava com fome. – deixo escapar.

- Não estava. – ele responde olhando para a janela. – Mas você não me disse o seu nome. – completa virando e caminhando em minha direção.

- Então, era uma ordem? – pergunto erguendo a sobrancelha enquanto deixo a bandeja sobre a escrivaninha.

- Não, mas você não me deu outra escolha. – Príncipe Rafael responde cruzando os braços sobre os peitos. Assim, próximo a mim, ele não era tão feio. Quero dizer, as garotas do orfanato morriam de amores por ele, e agora entendo. Os cabelos negros, olhos verdes e a pele clara chamavam a atenção, isso sem contar no sorriso provocador. Mas, eu sempre vivi no mundo real para não me permitir ser iludida por sonhos.

- Meu nome é Katerina, senhor. – respondo sem tirar os olhos dele.

- E de onde você é, Katerina? – pergunta.

- Me desculpe, senhor, mas eu estou cheia de coisas para fazer e, se a senhora Cândida me pega aqui, capaz de me expulsar do castelo. – imploro sabendo que chegamos a um assunto delicado.

- A senhora Cândida está ciente de que você agora não trabalha mais na cozinha. – ele responde erguendo a cabeça. Como?

- O quê? – pergunto sem entender. Eu fui expulsa? – Foi sem querer, senhor. Eu juro que não joguei a bandeja de propósito, eu me assustei.

- Está tudo bem, Katerina. Você não trabalha mais na cozinha, porque vai me auxiliar com os meus afazeres. – ele conclui cruzando os braços tranquilamente.

- Olha, senhor, creio não ser a pessoa adequada para isso. – respondo sinceramente.

- Você sabe arrumar um quarto? – pergunta e eu concordo com a cabeça. – Sabe ler as pessoas, saber quando estão mentindo? – concordo novamente. Cresci com um bando de crianças que tentavam levar vantagem em cima das outras, aprendi isso bem cedo. – Então, você é a pessoa certa.


Rafael


Depois de um dia conversando e conhecendo mais sobre Katerina, percebi que tinha que descobrir mais sobre ela, mesmo que ela não me tenha me dado muitos detalhes, então, fui até a senhora Matilda, responsável por recrutar serviçais para o castelo, e investiguei sobre de onde ela vinha. Não vou negar, foi um choque descobrir que Katerina era órfã. Depois de algumas investigações no orfanato, descobri que ela era filha de Alana Spark e seu pai se chamava Henri, sem sobrenome nos registros. A única pista que eu tinha, depois disso, era da melhor amiga de Alana, Danelle, que confessou que Alana se envolveu com alguém da realeza e que, quando enfim sua ficha caiu de que não poderiam ficar juntos, ela fugiu para parte alta de Pedra Verde sem contar para Henri que estava grávida mas, ao dar à luz a Katerina, não resistiu, dando-lhe apenas o nome. Como Danelle não tinha condições de criar a menina, entregou-a no orfanato. Onde foi criada até hoje. E aqui estou eu, ciente de que Katerina é uma Montreal e sem saber o que fazer. Passar o dia com ela ontem, me fez sentir real, o toque e o sorriso dela, foram sensações novas que me fez sentir feliz como nunca fui. Talvez, nós não sejamos as pessoas ditas na profecia, somos só duas pessoas, de famílias inimigas, mas que se encontraram. Certo?

- Oi! – Katerina senta ao meu lado me tirando dos pensamentos. – Procurei você o dia todo. Pensei que poderíamos analisar as fichas das suas pretendentes, o que acha? – pergunta entusiasmada.

- Porque não me disse que era órfã? – pergunto tentando entender o motivo.

- Não achei que tivesse necessidade. – admite dando de ombros. – Olha, eu não sou ninguém importante, mas, você me deu uma chance de ser algo além de uma órfã, de poder ajudar no castelo, então, não quis que me demitisse por eu não ter pais.

- Eu fui ao orfanato hoje. – abro o jogo com ela. – Você não é órfã, Katerina. – ela fica em silêncio. Seus olhos se arregalam e um misto de emoções passam por eles. – Sua mãe morreu, mas seu pai ainda está vivo.

- NÃO! – ela me interrompe com um grito enquanto lágrimas rolam por seu rosto. – Ele morreu. Eu nunca tive um pai. – completa tentando se acalmar. Levo meus dedos ao seu rosto limpando as lágrimas.

- Está tudo bem. Você é diferente de todas as mulheres que já conheci. Eu tinha que escolher alguém no baile e eu escolhi você. Mas precisava saber da sua história para que pudéssemos ficar juntos. – falo sem tirar os olhos dela. – Você é Katerina Montreal, filha de Henri Montreal e a única herdeira do trono da parte baixa de Pedra Verde. – completo para ela que me olha sem entender.

- O quê? – pergunta. – Você está enganado. – insiste ela.

- Eu procurei Henri, confirmei a história que a amiga da sua mãe me contou. Quando ele descobriu que sua mãe teve uma filha, ele te procurou em todos os lugares, mas haviam dito que você também não tinha resistido. Sabe essa manchinha que você tem no pulso? – pego sua mão alisando a marca de nascença. - É uma marca de nascença, idêntica à dele. Você é uma Montreal!

- E onde exatamente isso facilita paranós? – pergunta com lágrimas voltando a rolar pelos olhos, ela entendeu. O fato de ela ser herdeira, nos permite ficar juntos segundo a lei, mas o fato de ser uma Montreal, muda tudo.

- Eu não me importo com uma briguinha idiota entre dinastias. – declaro beijando seu rosto no exato momento em que uma lágrima rola por ele.

- Você não, eu não. Mas e todo o resto? – pergunta fechando os olhos a sentir o meu toque.

- Daremos um jeito. Ou morreremos tentando. – completo beijando-lhe nos lábios.


Katerina


Ao encostar seus lábios nos meus, uma enxurrada de lembranças do passado, lembranças que nunca vivi, me invadem. Nelas, um casal é morto pela própria família. Apenas para impedi-los de ficar juntos e, não sei como, mas eu sei. Não é um aviso, éramos nós. Francis e Clarice.

- Francis? – pergunto sem ar ainda tomada pelas emoções e sentimentos das visões.

- Clarice! – Rafael fala me tomando nos braços. – Eu sabia que nos reencontraríamos.

- Independente de quantas vidas vivermos e contra quem tivermos que lutar. – Repito a nossa promessa.

- Está pronta para enfrentar o mundo? – pergunta me observando.

- Ao seu lado, sempre estarei.


O valor do verdadeiro amor


Ao se reencontrarem, Clarice e Francis, agora conhecidos como Katerina e Rafael, lutaram contra o ódio da família Castillo, apesar de receberem apoio dos Montreal. Rafael foi considerado um herói por ajudar Henri a encontrar sua filha depois de 16 anos e, no leito de morte de sua mãe, ele conseguiu o perdão dos Castillo, unindo novamente o povoado de Pedra Verde. A terra, por sua vez, nunca fora tão farta e feliz quanto no reinado do casal da profecia e, juntos, eles provaram mais uma vez, o valor do verdadeiro amor.

 



"Mudar para uma cidade onde não conheço ninguém, era de longe a última coisa que eu teria planejado fazer, mas, devido às circunstâncias, aqui estou. Em uma cidadezinha quente, em um fim do mundo, com o nome de Scare Town. Na boa, quem dá um nome desses para uma cidade? Com certeza a intenção não era atrair as pessoas para lá. E, quanto menos pessoas souberem que eu estou aqui, melhor. Então, lar doce lar, Scare Town!


Depois de planos, estudos sobre a cidade e muita mudança, a minha própria loja de artesanatos e presentes está pronta e de portas abertas.


O som da moto chega antes dele na loja chamando a minha atenção. Por favor, imploro em pensamentos, que não seja problemas.

- Bom dia. - o jovem alto, moreno, todo tatuado e com um colete entra na loja colocando um cigarro entre os lábios.

- Desculpa, proibido fumar. - anuncio apontando para uma plaquinha que está em uma das paredes, entre os vários artesanatos que fiz das praças e pontos turísticos da cidade pouco depois de vir pra cá.

- Vai ter que me desculpar por isso. - ele fala apagando o seu cigarro em um ponto da bancada. Ótimo. - Nova por aqui? - pergunta olhando ao redor com um ar de superioridade. É tudo o que eu preciso. Um cara com ar de quem manda na cidade pra ficar no meu pé.

- Pode-se dizer que sim. - respondo implorando por dentro pra que ele saia logo.

- Bela loja. - comenta ele voltando a me olhar.

- Obrigada."


Acordo assustada com o despertador tocando e os olhos marejados de lágrimas. Porque sempre sonho com o começo de tudo? E porque sempre no dia em que tudo teve um fim? Quando conheci Jack não imaginava a importância que ele tomaria em minha vida. O quanto me apaixonaria por ele e muito menos que teria que passar o resto da minha vida sem ter ele ao meu lado. O amor que vivemos marcou a mim, a ele e principalmente, a todos da cidade que não acreditaram quando começamos. Não os julgo, eu mal podia acreditar que estávamos realmente juntos.


Jack nunca foi um cara comum, daqueles que me despertavam interesse. Ainda assim, depois de tanto insistir, ele conseguiu. E então, há exatos cinco anos atrás, ele se foi. Ao tentar salvar um garotinho no incêndio da fábrica de tecidos. Um acidente terrível que chocou toda a população de Scare Town, principalmente pelo fato do motoqueiro politicamente incorreto da cidade ter perdido a sua vida tentando salvar um garotinho. Por algum motivo, aquele garoto tinha pulado as grades da fábrica para pegar a sua bola que havia caído ali. Momentos antes, um bêbado da cidade, tinha começado o incêndio ao entrar na fábrica escondido da falha segurança. Mas como o garotinho poderia saber? Ao entrar nas dependências da fábrica, ele se viu tentado a ver o interior e, quando estava entrando, eu e Jack passamos na porta de moto. Eu só tomei consciência do que estava acontecendo, quando Jack parou a moto e pulou dela me implorando a gritos para eu não sair dali. Com agilidade, ele pulou as grades e entrou correndo na fábrica. Foi ai que eu vi a fumaça saindo. Aflita, liguei para o corpo de bombeiros, que chegaram pouco tempo depois, mas o estrago já tinha sido feito. Esperei por horas por Jack do lado de fora, até receber a notícia de que ele nunca voltaria. Infelizmente, o garotinho que ele fora salvar, também não resistiu. E ali eu perdi o grande amor da minha vida.

- Merda, Jack. - praguejo jogando meu braço no lado da cama onde ele deveria estar. - Eu faria qualquer coisa para te ver mais uma vez.

Aquele seria o quinto dia 31 de outubro, sem ele. E, a pequena cidade de Scare Town se preparava para mais um halloween mágico e assustador. A festa tinha direito à parque infernal, casa do grito e doces ou travessuras na rua. Neste dia, em questão, as escolas fechavam e apenas alguns lojistas abriam para aproveitar o movimento na cidade. A noite das bruxas de Scare Town, atraia visitantes de todos os cantos para a assustadora cidade.

Como qualquer outro dia, decido ir pra loja, mas, no fim do expediente, ao voltar para casa, percebo algo parece diferente. O ar parece mais pesado, como se algo estivesse por acontecer. Ao virar a esquina da rua da loja vejo um garotinho parado em um dos becos do outro lado da rua, ele parece sujo de fuligem e um pouco perdido. Me certifico que não vem nenhum carro, para atravessar e ver se ele está perdido, mas ao voltar o meu olhar para o beco, ele não está mais lá, é como se estivesse evaporado. Tento ignorar isso, e volto para o meu caminho.A cidade está cheia e todos parecem preocupados com o evento da noite. 


- Você tem ciência da deusa que é? - eu escuto um sussurro que fez a minha espinha gelar. Foi exatamente o que Jack disse quando coloquei o seu colete depois dele insistir durante uns bons minutos. Olho ao redor para ver se é alguma pegadinha de mal gosto, mas estou sozinha na rua.


- Tá, eu definitivamente detesto dia 31 de outubro. - resmungo decidida a chegar em casa.


Em cinco anos morando nessa cidade, a única pessoa que eu realmente me importava se foi e os nossos amigos, bom, eu acabei me afastando de todos. Não me leve a mal, eu vim pra cá para ter uma vida discreta. Foi Jack quem me trouxe de volta à vida e então, sem mais nem menos ele se foi. E é assim, perdida em pensamentos, já com a lua brilhando no céu, que eu sinto o seu cheiro passar por mim, como uma lufada de ar. Droga, o que está acontecendo hoje?


- É o véu entre os dois mundos, minha querida. - uma senhorinha de, aparentemente, uns 90 anos segura meu braço me assustando. Eu falei isso alto?


- Como? - pergunto sem entender.


- O véu entre os dois mundos. - diz ela em uma voz aterrorizante e, ao perceber que eu não faço ideia do que ela está falando, ela continua. - Em todo dia 31 de outubro, quando as barreiras entre os dois mundos enfim falhar, mortos e vivos andarão juntos novamente e você poderá ver aquele que jurou amar. - Eu só posso estar sonhando com isso. Assim como surgiu, a senhorinha sai andando, olhando para todos os becos e ruas, procurando por alguém.


Olho no meu relógio e descubro que faltam poucas horas para a festa começar. Tempo de sobra pra chegar em casa e preparar a minha própria noite sozinha.


Ao chegar em casa, sinto algo diferente. Tem alguma coisa fora do lugar, mas não consigo descobrir o que é. Vou até a cozinha e pego um copo de água. E é então que a minha ficha cai. Sei exatamente o que está fora do lugar.

Volto correndo pra sala e, ao chegar lá eu o vejo. O bem mais precioso que Jack tinha depois da moto, seu colete, está em cima da poltrona. Deixo meu copo de água cair em choque. Eu estou ficando louca? Tenho certeza de que ele estava no guarda roupas, lá em cima. Como ele poderia ter vindo parar aqui? Olho ao redor pra ver se tem alguém em casa, mas não tem nenhum movimento. Nada. Sou só eu e o colete.


Lentamente, caminho até a poltrona e pego-o entre as mãos levando até o nariz. Seu cheiro ainda está ali.

- Como queria que você também estivesse, Jack. - sussurro subindo com ele em direção ao quarto.


Depois de dormir um pouco, decido tomar um banho na banheira e, ao sair, coloco o colete no corpo ainda úmido. Ao longe, escuto os sinos da igreja anunciando que são meia noite. Caramba, por quanto tempo eu dormi?


- Nunca vou me cansar dessa visão. - a sua voz, em alto e bom som, me tira dos meus pensamentos. Ao me virar para a porta do banheiro, Jack está parado, com aquele olhar provocante e aquele sorriso sedutor. O seu cheiro chega até mim antes mesmo dele. E, por um segundo é como se ele ainda estivesse ali. Quero dizer, realmente ali, não só nos meus pensamentos. Sinto meus olhos se encherem de lágrimas.


- Isso é impossível. - sussurro levando as mãos até os lábios.


- Nada é impossível, querida. - ele responde abrindo os braços para que eu o alcance. Mas, como? Lentamente caminho até ele examinando-o desconfiada.


- Como você pode estar aqui? - sussurro perguntando.


- Precisei fazer muitos favores pra isso. - ele garante dando de ombros. Sei que ele está orgulhoso por isso, apesar de tentar demonstrar que não é nada demais.


- Não, é sério. Isso não pode ser real. - declaro parando a cinco passos de distância dele.


- Bom, você vai ter que testar pra ver. Confia em mim? - ele pergunta e eu sei que, não importa se não for real, eu quero acreditar que sim e aproveitar isso. Então, a voz da senhorinha me volta à mente. "quando as barreiras entre os dois mundos enfim falhar, mortos e vivos andarão juntos novamente". Entre lágrimas e sorrisos, termino com o espaço que restava entre a gente e pulo nele cruzando minhas pernas em sua cintura.


- Caramba, amor. Que saudades disso. - ele sussurra no meu pescoço.


- Se isso for um sonho, garanta que eu jamais acorde dele. - declaro. - Eu não aguento mais sem você. - assumo sentindo as lágrimas rolarem.


- Aguenta sim, eu nunca sai do seu lado. E, agora, vou poder te ver uma vez por ano, bebê.


- Como assim? - olho-o sem entender.


- Eu nunca achei que isso fosse real. Nunca tinha perdido ninguém que eu realmente me importasse para saber. Mas ficar longe de você, estava me deixando doido. - ele começa a me explicar. - Então, fiz algumas amizades e descobri, que todo dia 31, as barreiras entre os dois mundos ficam fracas e, se você conhecer as pessoas, ou os mortos certos, você consegue atravessar elas e visitar quem você ama. É por um curto tempo, mas eu precisava que você me visse. Precisava dizer que eu estava aqui todos os dias ao seu lado. Mesmo que você não pudesse me ver. Minha promessa foi real, amor. Eu nunca vou sair do seu lado. Na vida e na morte. - ele sussurra no final me beijando apaixonadamente.


- Não tem como fazer isso ficar permanente? - pergunto olhando-o. - Por favor.

- Amor, não dá pra enganar a morte. Não para sempre. - ele fala me levando de volta para o quarto. Sua mão segura minha bunda e lentamente, ele nos senta na cama e acaricia meu rosto. 

- Eu te amo por ter tentado salvar aquele garotinho. Mas te odeio pelo mesmo motivo. - sussurro.

- Eu sei, eu sei. Me desculpa por isso. Eu precisava fazê-lo. 

- Até quando você pode ficar? - pergunto ao me deitar ao seu lado na cama. 

- Até o sol nascer. - ele responde e sinto nele, a dor que atravessa o meu corpo. - Você se lembra do dia em que decidimos morar juntos? - ele pergunta e a lembrança surge clara na minha mente.

- Lembro. Você me disse que iríamos enfrentar muitas coisas mas que, não importa o que estivesse por vir, nosso amor não era coisa desse mundo ou dessa vida. A gente daria conta de contornar qualquer coisa pra ficar juntos. - repito as palavras que ele me disse naquele dia. Naquela época, achei que ele estava falando das pessoas da cidade ou do meu ex maluco que me perseguiu até aqui. Mas hoje sei que isso se aplicava a qualquer coisa que viesse.

- Qualquer coisa para ficar juntos. - ele repetiu firmando a sua promessa. 

- Eu te amo. - sussurro segurando seu rosto entre as mãos.

- Eu te amo. - ele responde selando nossos lábios com um beijo. Naquela noite, decido não dormir. Me recuso a perder um segundo sequer ao lado dele. Jack me conta que o garotinho que ele tentou salvar foi quem conseguiu fazer com que ele atravessasse a barreira para me ver. 

- Amor, - ele chama a minha atenção depois de um bom tempo conversando. - eu preciso que você me prometa uma coisa. - o seu tom de voz muda e tenho medo do que está por vir. - Se eu não voltar ano que vem, você tem que seguir. - há dor em sua voz e seus olhos lacrimejam. 

- O quê? Não! - respondo em um soluço. - Qualquer coisa para ficar juntos. - repito para ele a promessa que fizemos.

- Eu sei, eu sei. Mas você tem que seguir. Eu sei que um dia nos reencontraremos de novo e ficaremos juntos. Mas se algum coisa acontecer e eu não aparecer ano que vem, eu vou me detestar por saber que você ficou presa a mim. - ele explica.

- Eu nunca me senti presa, pelo contrário. Jack, você é a minha liberdade. - admito para ele. 

Ao escutar minhas palavras, ele me toma em seus braços e me beija apaixonadamente. Sinto sua imagem ir desaparecendo antes mesmo de ver o primeiro raio do sol.

- Eu te amo. - ele sussurra antes de ir por completo. Uma lágrima cai dos seus olhos antes que eu não possa vê-lo mais.

- Eu te amo. - respondo já sozinha em nosso quarto. - Você é a minha liberdade. 


Naquela noite, dormimos juntos como não fazíamos a muito tempo e decidimos que, dali pra frente, repetiríamos isso todos os anos no dia 31 de outubro, até descobrir como tornar isso permanente.



Elenco

 Olivia Holt como Kimberlly Milles

Olivia Holt como Kimberlly Milles

Cole Sprouse como Alex Carter

Cole Sprouse como Alex Carter

Zoey Deutch como Daniele White

Zoey Deutch como Daniele White

Jordan Fisher como Natan Fisher

Jordan Fisher como Natan Fisher

Abigail Cowen como Tamara Young

Abigail Cowen como Tamara Young

Ian Somerhalder como Tomas Brown

Ian Somerhalder como Tomas Brown

Jessica Alba como Hillary Brown

Jessica Alba como Hillary Brown


De Volta à Mansão dos Brown

Todo ano, na véspera de Halloween, a cidade Fear Town vira ponto turístico com a atração Casa do Terror. Por levar um nome, aparentemente maligno e carregar várias histórias de terror e superstições, aventureiros buscam a cidade em época de Halloween para testar sua coragem. Admito que sempre achei isso o cúmulo da idiotice.

Como é de costume, todo ano uma família é escolhida para eleger e decorar a Casa do Terror. Naquele ano, a família Jones foi eleita para assumir tal função.

Eu, particularmente, não curto muito o Halloween. Na verdade, sou extremamente cagona para essas coisas.

- Como assim você não vai? – Daniele me pergunta como se o que eu tivesse dito fosse uma tremenda ofensa.

- Amiga, na boa... Você sabe que eu não curto essas coisas... Então, por que perder meu tempo? – declaro enquanto descemos a Alameda Alfred.

- Ok, eu sei. Você é cagona para isso. – ela fala com desdém.

- Eu não sou "cagona". – dou de ombros mesmo sabendo que eu estava mentindo.

- Então prova. – ela me olha em tom de desafio.

- Tá. – respondo implorando para ela deixar isso pra lá.

- Kimberly Milles, eu desafio você a ir comigo à casa do terror desse ano que será na antiga mansão abandonada dos Brown. – ela cruza os braços.

- Espera aí, a Casa do Terror esse ano vai ser na mansão dos Brown? – pergunto assustada. Só de falar no nome da família Brown, sinto um arrepio na nuca. Qualquer pessoa que tenha, pelo menos, um neurônio funcionado evita sequer passar na frente da mansão.

Uma das mais antigas histórias da cidade conta que Tomas Brown, um jovem de aparentemente uns 40 anos se matou na mansão após matar sua jovem esposa Hillary. É claro que nunca levei a história à sério, mas nem por isso eu me aventuro a ponto de entrar nas propriedades da mansão.

- Sim. Jimmy me disse que os pais dele já conseguiram até licença na prefeitura para isso. A essa altura, a decoração já deve estar quase pronta. Então, vai provar a sua coragem indo comigo amanhã? – ela me olha como se sua vida dependesse disso.

- Dani, qual é. Por que ir até a mansão? – como eu disse, só de passar perto da mansão para visitar uma tia, meu coração já acelerou. Algo na casa me causa arrepios.

- Kim, isso não é real. É só uma história boba para assustar crianças. – ela tenta me tranquilizar.

- Ah é? E por que ninguém nunca se atreveu a morar lá? – afinal, a casa era uma baita mansão.

- Mulher, você já olhou para casa? Ela está caindo aos pedaços. – deduz como se aquilo fosse óbvio.

- Ok, você venceu. Eu vou com você. – declaro.

- Yees.

- Bela fantasia! – Daniele disse ao me pegar em casa e ver minha fantasia improvisada de pirata. Enquanto ela está fantasiada de tábua ouija, com direito a lente de contato branca e tudo o mais.

- Você se empolgou na fantasia, né? – comento ao entrar no carro e colocar o cinto.

- Tá de brincadeira? Tem mais de um mês que estou preparando minha fantasia. Foca nas lentes. – ela diz se virando pra me olhar enquanto aponta o indicador para o olho direito.

- Eu foco se você prometer focar no trânsito. – imploro.

- Kim, você precisa relaxar mais.

- É, eu sei. – nem sempre fui tão certinha assim. Há dois anos, eu e Natan fazíamos tudo o que dava na telha.

"- Eu pulo primeiro. – ele disse quando chegamos na beira da ponte Baker.

As pessoas costumavam vir aqui e pular no rio, era normal, nada muito arriscado... Mas, dias antes, houve uma chuva forte que acabou trazendo muitos galhos e vários troncos de árvores ficaram agarrados nas colunas da ponte. Não tinha como ninguém prever. Sem olhar antes, Natan pulou. Corri para a beira da ponte para vê-lo emergir. Mas ele não veio. O desespero me tomou e, no mesmo momento, liguei para minha mãe. Pouco tempo depois, o socorro havia chegado. Nunca encontramos o corpo de Natan."

- Kim?! – a voz de Dani me volta à realidade. Pisco umas duas vezes tentando limpar as lágrimas. As lembranças vêm e vão e, quando chegam, eu não as impeço.

- Desculpa. – peço e só então percebo que chegamos.

- Estava lembrando dele de novo, né? – ela pergunta e só aceno com a cabeça. – Ok, vamos nos divertir essa noite, tá? – ela comenta e novamente eu aceno em concordância.

Ok, e eu achando que a mansão dos Brown não conseguiria ser mais assustadora. A entrada estava iluminada por abóboras com lanternas laranjas, dando um clima sombrio e, um tanto fúnebre. A porta estava coberta com um tecido preto. Havia pessoas ao redor do casarão. Algumas tomando coragem para entrar. Outras rindo e bebendo, como se ali fosse um ótimo lugar para isso. Escuto uma caminhonete chegar e, automaticamente me viro em direção ao som, provavelmente para tirar minha atenção do casarão, admito.

- Okay, próxima visita saindo em 10 minutos. – Um dos irmãos de Jimmy anuncia. Ele estava na porta, cobrando a entrada de quem quisesse entrar no interior da casa. Ou seja, além de se borrar lá dentro, você ainda teria que pagar por isso. Legal!

- Está pronta? – Dani pergunta ao meu lado.

- Eu tenho escolha? – insisto torcendo para que ela fale que podemos ir embora.

- Acho que não. – brinca me puxando pelo braço.

As visitas eram feitas de 3 em 3 pessoas. Além de mim e Dani, o forasteiro que acabou de chegar na caminhonete entra na fila com a gente. Uma música aterrorizante vem lá de dentro e, de repente, o irmão de Jimmy começa as instruções:

- Sejam bem-vindos à mansão dos Brown. Você vai começar uma nova aventura nos interiores do casarão mais aterrorizante da região. Você não poderá sair por onde entrou. Cada um terá direito à uma lanterna. Sugiro que andem em grupo e se guiem até a saída nos fundos do casarão. Ah, e não se esqueçam. Em noite de Halloween, os mortos voltam à vida. – é o quê?!

- Era para ser encorajador? – sussurro para minha amiga que parece distraída com o forasteiro.

- Você já reparou que o nosso amigo aí é um gato? – ela sussurra em resposta e, automaticamente, eu me viro para olhá-lo. O cara parece ter uns vinte anos, cabelo castanho cortado baixo, os olhos verdes encarando a entrada da mansão, uma jaqueta de couro preta e um perfume forte e amadeirado.

- Entrem. – o irmão de Jimmy anuncia e, com muito receio, entro na mansão.

- Puta merda. – é a minha primeira reação. A mansão é mil vezes mais assustadora aqui de dentro. Principalmente iluminada apenas pelas nossas lanternas.

- Relaxa, gatinha. Eu protejo vocês. – o forasteiro sussurra em meu ouvido e um arrepio percorre por todo o corpo antes de eu revirar os olhos. Antes de eu dizer qualquer coisa, ouço gritos vindo de um corredor à nossa direita.

- O que foi isso? – pergunto girando a lanterna na direção do grito. Mas não há nada lá.

- Acho que faz parte do cenário. – Dani disse tentando me convencer. Então, uma risada maligna percorre o ambiente nos fazendo andar em busca da saída.

- Isso só pode ser brincadeira, né? – pergunto incrédula. Mas antes que um dos meus companheiros possa dizer algo em resposta, uma moto serra é ligada tão próximo que ambos começamos a correr.

- Kim, vai devagar. – escuto Dani gritar atrás mas estou aterrorizada demais para isso. Na realidade, acho que a minha parte que distingue o que é real e o que é mentira se desliga por um segundo e o pânico de morrer ali me consome.

De repente sinto um peso bater contra meu corpo, seguido pelo impacto das minhas costas no chão e um corpo sobre o meu. Tudo fica escuro e, por um breve segundo, me pergunto se eu estou morta, afinal.

- Kim? – escuto Dani chamar ao fundo e o corpo que pressionava meu corpo parece sair de cima, me forçando a abrir os olhos.

- O que aconteceu? – pergunto me sentando. – Aí, merda. – reclamo levando a mão na cabeça e só então associo o que aconteceu. – Por que raios você fez isso? – por algum ataque de loucura, o forasteiro simplesmente se jogou contra mim.

- De nada. – ele responde ainda sentado no chão.

- Kim, você começou a correr feito louca. Ao invés de procurar a saída, você subiu todos os andares da mansão até a sacada. Se ele não tivesse te parado... Eu não quero nem pensar. – e é ai que eu percebo que estamos na sacada da mansão dos Brown.

- Eu... – a realidade é que não me lembro muito bem o que aconteceu nem porque vim parar aqui.

- A propósito, meu nome é Alex. – ele se apresenta estendendo sua mão para me ajudar a levantar.

- Obrigada. – admito envergonhada.

- Acho melhor sairmos daqui. – ele comenta sorrindo para mim.

- Com certeza. – Dani comenta e consigo perceber que, pela primeira vez, ela parece realmente apavorada.

- Então, o que trás você à Fear Town? – ouço Dani perguntar a Alex mais à frente.

- Sinceramente? Não faço a mínima ideia. – ele admite ao passar de frente um espelho grande com manchas do tempo. – Eu senti que precisava vir.

Então eu o vejo. Ao passar em frente ao velho espelho. Natan está lá. Com a mesma roupa do dia em que morreu. Em choque, levo minhas mãos à boca enquanto as lágrimas correm pelo meu rosto.

- Oi, gatinha. – ele sussurra.

- Natan? – sussurro seu nome.

- Kim? – Daniele surge ao meu lado.

- É o Natan. – olho pra ela por um breve momento e depois volto meu olhar pro espelho. – Ele está ali.

- Kim não tem ninguém ali. – Dani comenta com cautela.

- Ela não pode ver, gatinha. Você não lembra da lenda? – pergunta com aquele sorriso brincalhão no rosto.

- Apenas quem já viu a morte de perto, seja a própria ou a de alguém que tanto amou, é capaz de ver através do véu. – sussurro encarando-o. No reflexo, vejo Dani meio perdida e Alex petrificado. Só então eu vejo o reflexo de uma mulher ruiva parada na frente dele. Diferente de Natan, a mulher desvia o olhar de Alex para sorrir para mim e, lentamente, caminha até Natan, de algum jeito trazendo Alex junto com ela.

- Precisávamos trazer vocês dois aqui hoje. – ela começa e, sem querer, desvio a atenção de Natan para Alex.

- Gatinha, lembra do conto da mansão dos Brown? – Natan me pergunta.

- Ele se matou após matar a própria mulher. – respondo a ele.

- Kim, você está me assustando. Vocês dois estão, é sério. – Dani resmunga segurando meu braço esquerdo.

- Está tudo bem, Dani. – respondo voltando minha atenção para Natan.

- Ele não a matou. A mulher dele foi vítima de uma praga. Tomas amou tanto a mulher, que quando ela morreu, ele não suportou viver em um mundo sem ela. – Natan explica.

- Ele vagou por séculos no limbo até conseguir redenção e uma nova oportunidade de consertar as coisas. – a ruiva explica. Alex parece em choque ao meu lado.

- Na época da praga, o seu sobrinho veio visitá-los. Ele sabia que já estava doente, mas foi irresponsável demais para evitar contato com outras pessoas. – Natan segue explicando.

- E a única médica de plantão que poderia ajudá-la se recusou a perder a última noite com o seu amor para cuidar de uma paciente. – a ruiva explica.

- Tamara, o que você está dizendo? – Alex pergunta à garota no espelho.

- Estou dizendo, Tom. Que se, naquela noite eu tivesse cumprido com o meu juramento, Hillary não teria morrido. – ela está com lágrimas no olhar.

- E se eu não tivesse insistido em vir visitá-los, nada disso teria acontecido. – Natan se explica e, do nada, uma explosão de memórias de outra época invadem o espelho. As lembranças pareciam reais e acolhedoras. O casamento de Tomas Brown com Hillary. Os dois em uma brincadeira de pega-pega que acabou resultando com os dois na cama. O flerte matinal enquanto Tomas lia jornal... Era estranho ver tudo aquilo porque me dava a sensação de que aquelas memórias me pertenciam. Mas como podiam pertencer?

- Reencarnamos para concertar nossos erros e nos tornar pessoas melhores. – Tamara diz entregue pelas emoções. – Vocês dois, Alex e Kimberlly, outrora já foram Tomas e Hillary. Interrompemos a vida de vocês pelos nossos caprichos e, hoje, concertamos tudo...

- O quê? – pergunto – Não, Natan... – levo minhas mãos ao espelho.

- Eu sei gatinha. Mas tudo o que aconteceu, aconteceu para trazer vocês dois aqui, hoje. – ele coloca sua mão de encontro à minha mas tudo o que eu sinto é o frio do espelho.

- Alex... – Tamara chama. – Kimberlly... – e então volta seu olhar para mim. – Permitam se conhecer. – e eu nego com a cabeça.

- Você detesta Halloween e, ainda assim, alguma coisa te trouxe aqui hoje, não foi? – Natan pergunta.

- E você, Alex... Não sabe por que veio, mas ainda assim está aqui. – Tamara se direciona à Alex.

- Nosso tempo está acabando, mas por favor, prometam... – Natan pede antes que sua imagem comece a sumir.

- Não... – chamo-o de volta, mas nada vem... – Natan? – imploro enquanto me jogo contra o espelho.

- Kim? – Daniele me chama mas eu a ignoro. – Alex, temos que sair.– e, quando menos espero, sinto as mãos de Alex me puxarem.

- ME SOLTA!!! – tento me soltar mas parece em vão.

- Kimberlly, vamos. – ele pede mas eu puxo tentando me soltar.

- ME SOLTA!!! – imploro. – Ele vai voltar.

- Kim, por favor! – Dani pede mas eu a ignoro também.

- Tá, chega. – Alex diz e me pega pelo colo. Tento, em vão, bater em seu peito para que me solte, mas parece não fazer nem cosquinhas.

- Por favor... – sussurro por fim já sem forças.

- Eu sinto muito. – escuto Alex sussurrar antes de cair no sono. De repente, foi como se todas as minhas forças tivessem se esvaído.

- Kim... – escuto uma voz masculina sussurrar enquanto tira minha franja do meu rosto.

- O quê? – pergunto abrindo meus olhos por fim e, de repente me sinto perdida. Quanto tempo eu dormi? – O que aconteceu? – pergunto ao ver que estou na caminhonete de Alex. – Cadê Dani?

- Segui ela até em casa, depois prometi te levar para sua. – ele explica parecendo cansado.

- O quê? Não, eu devia estar com ela. – falo.

- Kim, você desmaiou no meu colo. Ela não sabia o que fazer com você. Tentei explicar o que vimos lá dentro, mas não sabia como fazer isso sem parecer um lunático. Então, falei com ela que já te conhecia e que deixaria você em casa sã e salva. – ele se explica.

- E ela acreditou nisso? – pergunto incrédula.

- Não. – ele diz dando de ombros. – É por isso que ela está no carro de trás vigiando a gente. – e só então tomo ciência do carro de Dani logo atrás da caminhonete.

- E por que amanhecemos aqui do lado de fora? – pergunto sem entender.

- Depois que ela me passou o endereço, estava tão cansado que apaguei antes de conseguir te levar para dentro. Então, sonhei coisas... – ele sussurra parecendo assustado.

- Eu sei. – passei a noite toda sonhando com coisas bizarras. Não somente com Hillary e Tomas, mas com outros casais ainda mais antigos. – Tive uns sonhos bem estranhos também.

- Como pode ser real? – ele pergunta e não sei como responder a essa pergunta. – Como eu poderia ter feito algo assim comigo? – ele pergunta e sei que está falando sobre Tomas.

- Está tudo bem. – tento confortá-lo pegando em sua mão, as lágrimas correm sobre seu rosto.

- Não está... Eu nunca nem havia escutado falar em Fear Town e, há duas semanas, não me sai essa sensação de que eu deveria estar aqui. De repente, minha namorada morta me diz que tudo foi um plano para fazer com que eu encontrasse minha ex mulher morta? Isso é surreal. – ele parece perdido. – Eu consigo sentir o amor que ele sentia por Hillary.

- Eu sei. – admito porque também sentia o mesmo. – E mesmo hoje, é como se eu já te conhecesse.

- Amor não é esse sentimento obsoleto que as pessoas falam pelos ventos hoje em dia. Amor é um sentimento que nasce e se nutre com o passar dos dias, dos anos e até dos séculos. Uma pessoa que ama alguém não deixa de amar por uma pequena causa ou por algo tão grandioso como a morte. Almas gêmeas deixam de ser mitos quando o amor se torna real. – sinto cada molécula do meu corpo se agitar quando seus dedos cruzam os meus.

- Caramba, isso é lindo. – sussurro em resposta. Então ele cola sua testa na minha.

- Foi você quem recitou-as para mim. Na primavera de 1794, de frente ao espelho da mansão. – sussurra quando a memória me invade.

- Isso é real? – pergunto a ele.

- Depois de ontem? Eu não sei mais o que é real. Mas sei o que quero fazer daqui para frente. – responde levando sua mão ao meu rosto.

- E o que é? – pergunto-o.

- Isso. – e então, o forasteiro cola seus lábios no meu, no interior da caminhonete vermelha enquanto lembranças de outras vidas nos invadem e o sentimento de estar em casa se faz presente.

Porque no final das contas, é isso. Você pode ter um teto para morar, mas nunca se sentir em casa, entende? Não é o quê... É quem. Sempre vai ser quem. Por mais que a felicidade venha de dentro. Somos predestinados a encontrar pessoas que nos faça viver com mais intensidade. Natan foi meu lar por um bom tempo. Dani é meu lar por ser uma amiga fiel. E Alex, ah... Alex, é o meu lar antes mesmo que eu o conhecesse nessa vida.

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Sobre Mim

Eu pensei em como me apresentar aqui para você de forma clara, enxuta e objetiva. Mas aí, eu me lembrei que eu nunca soube escrever pouco sobre algo e isso foi uma das descobertas que eu tive aos 25 anos em meio à crises de ansiedade e questões pessoais sobre quem eu era. É por esse motivo que hoje, aos 26 anos, eu resolvi criar o site, para falar um pouco sobre as minhas experiências e sobre realizações de um sonho (com ênfase no lançamento do meu primeiro livro publicado).

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